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Carmen Annes Dias, A Voluntária

Diz a história que o nome Porto Alegre é uma referência à alegria dos primeiros jovens casais açorianos que ali atracaram, por volta de 1750. A menina Carmen, nascida no Natal de 1911, era filha de um desses casais pioneiros da capital gaúcha.

A ascendência ilustre e animada devia ser para Carmen motivo de orgulho e responsabilidade. Pois desde os primeiros registros fotográficos, em todas as situações de convívio social que foram registradas em imagens, ela aparece com seu enorme sorriso, ostentado como um enfeite, uma benção com a qual foi agraciada e que se esforçava em espalhar para todos à sua volta.

Carmen fez da sua união com Antônio Prudente um acontecimento, uma experiência transformadora. Passou a usar o sobrenome Prudente como um estandarte, uma marca da luta contra o câncer.

Será que ele imaginava até onde Carmen iria quando escreveu aquela dedicatória convocando-a a se casar com ele e abraçar ao mesmo tempo sua causa pessoal?

-Ele gostava de tudo o que eu fazia - diria ela, já viúva, sobre os tempos em que, juntos, conquistaram São Paulo e, com dinheiro arrecadado junto à população, construíram o Hospital do Câncer.

O sisudo Antônio Prudente divertia-se com as estrepolias da mulher. Juntos, cruzaram o mundo em congressos internacionais sobre o câncer. Viajaram a 39 países, e conheceram 206 cidades em todo o mundo. A cada retorno, ele se espantava com os livros de viagem que Carmen escrevia sem parar.

"Marajás, Beduínos e Faraós" e "E o Nilo Continua", com impressões sobre o Egito, quando o casal participou de um congresso internacional no Cairo; "Perambulando pela Turquia e pela Grécia", "Passaporte 007/806", com impressões sobre a fuga de comunistas da antiga Berlim Oriental, em 1949.

Carmen escreveu 15 livros e cruzou os cinco continentes. Em todo lugar que fosse, proferia palestras perante auditórios categorizados de congressos, sociedades , organizações assistenciais, sobre os feitos da Rede Feminina de Combate ao Câncer no Brasil. E todos os seus livros tinham renda revertida para as obras assistenciais do hospital.

Às vezes, as dificuldades em administrar o Hospital do Câncer deixavam Prudente irritado. Daí, a simples passagem do médico de 1m90 pelos corredores metia medo nos funcionários. A gaúcha baixinha aliviava a tensão.

-Deixa o Tonão quieto hoje.

Tonão viveu ao lado de Carmen de 1938 a 1965. O casal não teve filhos.

- Só um, de concreto - dizia ela, referindo-se ao Hospital do Câncer. E, como é de praxe, o filho de concreto comportou-se como tal, e deu a seus pais muita alegria, tristeza e preocupação.

A Natureza da Paixão

-Que dizer de uma mulher que foi toda a minha vida?

Quais os segredos de Carmen? Que tipo de mulher é capaz de originar, mesmo após sua morte, declaração de amor como essa, feita por outra mulher, no caso, Maria Antonieta Vaz de Lima Bandiera?

Durante 40 anos, Maria Antonieta foi vice-presidente e braço direito de Carmen na Rede Feminina, hoje Rede Voluntária. Maria Antonieta era casada com o médico Dino Bandiera, 1º assistente de Antônio Prudente. Certa tarde, nos anos 40, a campainha tocou na bela residência do casal, na av. Paulista.

-Levei um susto. Já sabia quem ela era, só nunca tínhamos conversado antes.

Carmen veio sozinha, e desatou a falar.

-Eu sentia um friozinho na barriga. Sua conversa, no entanto, era cativante. Que jeito formidável de falar!

Não é de espantar que, um mês após o início dos trabalhos da Rede Feminina de Combate ao Câncer, em 1946, houvesse centenas de voluntários inscritos. A presidente da instituição era irresistível.

Carmen de Revorêdo Annes Dias era a segunda entre quatro filhos do casal Heitor Annes Dias e Carolina de Revorêdo. Ele, médico reconhecido no Rio Grande do Sul, clínico pessoal de Getúlio Vargas. Ela era a quase mitológica dama de sociedade, mulher cantada em versos nos pampas, sobrinha do político Júlio de Castilho. Uma morena alta, sorridente, bondosa, que depois de casada ficaria conhecida como Dona Sinhá. Além da filha Carmen, Dona Sinhá teve Cássio, em 1906, Helena, em 1915, e Balbinete, nascida por acaso em Paris, no ano de 1917.

A ampla casa da família, uma construção em estilo art nouveau na rua João Pessoa, bairro da Redenção, em Porto Alegre, vivia cheia. Nos idos dos anos 20, adolescência de Carmen, o irmão Cassio já era estudante de Medicina. Raramente almoçavam sós, viviam cercados de estudantes, geralmente, os amigos de faculdade de Cássio ou colegas das meninas compartilhavam da mesa de Dona Sinhá.

-Era uma farra! - lembrava Carmen. Ela trazia viva na memória principalmente a alegria da mãe, uma mulher sociável que se dedicava a obras de caridade no Sul.

Carmen era igualmente alegre, estudiosa, rápida no gatilho. A morena agitada admirava manifestações de força: tempestades, salva de canhões. A vida toda amaria os aviões a jato. Também aprendeu cedo a se enfeitar.

- Quem não se enfeita assim mesmo se enjeita, dizia.

Ainda criança, lá pelos 14 anos, assumiu o ar impecável que manteria vida afora.

-Gosto de estar sempre pronta. Afinal, nunca se sabe onde a gente vai parar até o fim do dia.

Carmen lia e recortava tudo que encontrava sobre outros países, principalmente os que não conhecia. Sonhava.

-Um dia eu vou estar lá.

Estudou no Colégio Sevigné, em Porto Alegre. Em casa, as meninas tinham aulas particulares de inglês, francês, alemão, hábito que Carmen nunca abandonaria. Vem daí a paixão pelos idiomas. Ela era fluente em espanhol, italiano, inglês, francês e alemão. Já adulta, aprendeu a falar russo e japonês.

Ao vasculhar seus pertences após sua morte, a família de Carmen encontrou um caderno com lições de árabe, provavelmente uma de suas últimas peripécias enquanto estava lúcida.

A família mudou para o Rio em 1934, acompanhando o pai, que já estava na antiga capital federal, como médico pessoal do presidente Getúlio Vargas. Durante o Estado Novo, foram morar no bairro do Flamengo, próximo ao Palácio do Catete. Tempos de sonho, em que Carmen chegou a tocar castanholas para Getúlio.

No Rio, Carmen trabalhava como secretária do pai, Heitor Annes Dias. Também atuava como jornalista para "A Gazeta", dos Diários Associados, de Assis Chateaubriand. Como secretária, Carmen se dividia entre as viagens com o pai e o trabalho no consultório. Heitor Annes Dias dava aulas na Universidade Federal do Rio de Janeiro e escreveu vários livros em sua área. Era clínico geral.

Foi numa das viagens com o pai, a Berlim em 1938, que conheceu o médico Antonio Prudente Meirelles de Moraes. À primeira vista, como contou às irmãs, achou antipático o grandalhão.

Casaram-se dois meses depois, na igreja do Rosário, Rio de Janeiro.

Com jeitão de aristocrata do café, o aparentemente antipático Antônio Prudente mostrou-se na verdade um tímido, religioso e idealista cirurgião completamente envolvido no combate ao câncer.

Carmen mudaria os ares em volta de Prudente, que não era nada expansivo. Em São Paulo, foram morar numa casa na rua Rodrigues Alves, no Paraíso. Casada, Carmen mudou de patrão. De secretária do pai, passou a auxiliar do marido.

Ela não teve filhos.

-Não farei nenhum tratamento. Deus deve saber o motivo, costumava dizer à família.

De certo modo, Carmen levou Prudente ao limite de suas possibilidades. Era dela a vontade férrea e o carisma para conseguir os recursos necessários para tocar os trabalhos do hospital quando tudo o mais parecia perdido.

-Ela era maravilhosa. Inteligente, sensível... Sua presença iluminava o ambiente, lembrou Maricha Angielczyk, uma judia polonesa que chegou ao Brasil em 1947 e durante 40 anos trabalhou com Carmen na Rede Feminina de Combate ao Câncer.

-Saíamos muito de carro, para recolher doações em fábricas. Ela visitava a todos para conseguir dinheiro e apoio. Nunca a vi sair de um desses lugares com as mãos vazias, dizia Maricha.

Não que a militância ao lado da senhora Prudente fosse uma espécie de calvário onde as jovens senhoras poderiam expiar seus pecados. Era uma diversão e uma aventura sair com ela pela cidade em busca de doações.

Um exemplo: a senhora Prudente não podia ver barracas de quebra-queixo. "Ela se lambuzava toda", contava a voluntária Maricha Angielczyk, ao lembrar de suas visitas a fábricas e lojas do Bom Retiro, reduto de imigrantes árabes e judeus em São Paulo.

Os lojistas acotovelavam-se para conhecê-la. "Dona Carmen está aqui?", diziam encantados. Quem não dava dinheiro doava o que tinha, roupas, armarinhos, o que houvesse à mão. "Voltávamos com a perua lotada. Não havia como carregar mais nada", contava Maricha.

Uma vez, Carmen parou o trânsito em pleno largo do Anhangabaú, no centro de São Paulo. Saiu atrasada para a gravação de um spot na antiga TV Record. Como não dirigia, deu indicações nada precisas sobre que caminho seguir para a voluntária Maria Genoveva Velho, que levava Carmen por todo lado em São Paulo, em seu Fiat caixotinho branco. O resultado foi que Genoveva entrou na contramão em plena Praça do Correio.

O guarda de trânsito ficou bravo, até saber quem estava dentro do carro. Quando viu Carmen Prudente, parou o trânsito para que Genoveva manobrasse e as duas saíssem dali em segurança.

Quando as crises do Hospital se acentuaram, na década de 70, e só vultosas quantias poderiam sanar as dificuldades, Carmen ligava para empresários e personalidades em busca de doações ou participações especiais em eventos.

- Nunca recusavam seus pedidos, testemunhou a voluntária.

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