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A Fundação Antônio Prudente

Mantenedora do Hospital A.C.Camargo, a Fundação Antônio Prudente é o embrião da própria instituição hospitalar.

Tudo começou em 1934, quando o Prof. Dr. Antonio Cândido de Camargo, da Faculdade de Medicina da USP, lançou a semente da Associação Paulista de Combate ao Câncer. A APCC teve seu primeiro estatuto social em 1936 e buscava combater os tumores malignos através de assistência médica hospitalar, difusão de informação, preparo de educadores voluntários, leigos, aperfeiçoamento de médicos e técnicos na área de Oncologia.

Antônio Prudente, jovem e renomado cirurgião, discípulo de A. C. Camargo, trazia consigo a idéia de fundar um hospital para tratar o câncer. Em 1943 conseguiram-se os primeiros 100 contos de Réis. Depois vieram as campanhas para a arrecadação de fundos, com destaque para o donativo oferecido pelo Comendador Martinelli, tratado pelo cirurgião Prudente, de 1.000 Contos de Réis.

Em 1946, a jornalista Carmen Prudente, já então casada com Antônio, cria a Rede Feminina de Combate ao Câncer e envolve boa parcela da população de São Paulo em torno da construção do hospital. Um jovem estudante de Medicina, Humberto Torloni, filho de imigrantes italianos, vence o concurso de arrecadação de fundos. No dia 23 de abril de 1953 entrava em funcionamento o Instituto Central - Hospital A. C. Camargo. Era o 1º. hospital de São Paulo erguido pela população e voltado para ela, sem distinções.

O corpo clínico do Hospital era constituído de 54 médicos efetivos, selecionados por Prudente. Compunham também a equipe cinco consultantes e 16 médicos residentes, distribuídos em 5 departamentos: Cirurgia (três serviços), Medicina, Radiologia, Anatomia Patológica e Patologia Clínica. No ano de 1955 formava-se a 1a turma de Residência Médica. Em 21 de novembro de 1961 o Hospital é considerado Instituto Complementar da USP e a Residência Médica como curso de Extensão Universitária, credenciada oficialmente pelo MEC.

No ano de 1973 a APCC é transformada em Fundação Antônio Prudente, hoje entidade filantrópica reconhecida oficialmente. Seu Conselho Curador elege, periodicamente, a Diretoria Executiva do Hospital e supervisiona sua gestão.

Nestes 53 anos, o Hospital A. C. Camargo e a Fundação Antônio Prudente vêm fazendo do Brasil um dos países de destaque no diagnóstico, tratamento e pesquisas sobre o câncer, com uma contribuição científica e geração de conhecimento comparável à das mais renomadas instituições oncológicas internacionais.

O Encontro de Carmen e Prudente

Berlim, 1938.

Durante uma visita de médicos brasileiros a centros de medicina germânicos, o promissor cirurgião Antônio Prudente Meirelles de Moraes, de 32 anos, encontra uma jovem gaúcha, risonha, culta demais para os padrões da época, Carmen Annes Dias. Era a filha do chefe da comitiva brasileira, Heitor Annes Dias, o médico pessoal do presidente Getúlio Vargas. Ele, Antônio Prudente, era neto de Prudente de Moraes, primeiro civil a ocupar a presidência do Brasil (1894-1898).

Compenetrado, sério, silencioso, aquele jovem alto e algo sisudo nascera como um príncipe da República Velha. Mas ao invés de seguir carreira política, desenvolvia desde os tempos de Faculdade de Medicina da USP uma batalha pessoal, contra um inimigo que não vicejava nos salões da alta sociedade, não era comentado em festas, sequer era reconhecido nos institutos de medicina. O câncer era o inimigo que Prudente chamava pelo nome, numa época em que a palavra sequer era pronunciada em público.

Até então, ele já havia percorrido um bom caminho para conhecer melhor a doença. Havia sido delegado do Brasil em diversos congressos internacionais de câncer. Nos EUA, em 1927, com apenas 21 anos; Madri, no ano de 1933; em Bruxelas, 1936. De 1929 a 1931, na Alemanha, trabalhou no serviço de Franz Keysser, no tratamento cirúrgico de neoplasias malignas. Ao lado A. C. Camargo, fundou a Associação Paulista de Combate ao Câncer, em 1934.

Em meio a tudo isso, Prudente se encantou com aquela jornalista de 27 anos que falava inglês, francês, alemão, italiano, espanhol e já escrevera seu primeiro livro de viagens, "Do Brasil ao Japão", uma reunião de seus artigos para o jornal A Gazeta, dos Diários Associados, escritos durante uma viagem àquele país.

Durante um jantar, já no navio de volta, entregou por baixo da mesa um livro de sua autoria para Carmen, e se declarou com uma dedicatória. "Que Deus nos una para sempre e que nosso pensamento seja um só: a luta contra essa doença terrível".

A morena miúda que aparecia rindo até em foto de documento, como toda mulher que é cortejada, deve ter sorrido ao receber o presente por baixo da mesa. Carmen com certeza abriu aquele sorriso de sempre, que um dia ficaria conhecido de norte a sul do Brasil como a marca registrada da luta contra o câncer.

A gaúcha levou a dedicatória ao pé da letra. Casaram dois meses depois, na Igreja do Rosário, no Rio de Janeiro.

"Não foi tão rápido assim. Demorei 13 dias para aceitar o pedido" brincava Carmen.

O Sonho

Foi o ideal do casal Carmen e Antônio Prudente que forjou o Hospital A. C. Camargo. É certo que Prudente já havia delineado anos antes um plano de luta contra a doença, em artigos de revistas médicas e jornais como O Estado de São Paulo, em 1933. Já havia também fundado em 1934 a Associação Paulista de Combate ao Câncer, durante um banquete em homenagem ao médico Antônio Candido de Camargo, professor da cadeira de Clínica Cirúrgica na Faculdade de Medicina da USP, que fora seu mestre. Primeiro presidente da Associação Paulista de Combate ao Câncer, como cirurgião Camargo revolucionou o tratamento de tumores de cérebro e medula no Brasil.

No entanto, a diretoria da APCC demoraria dois anos apenas para definir o estatuto da entidade, o que demonstra que não era fácil arrecadar recursos ou estabelecer políticas de combate ao câncer. Em 1939, pouco depois do casamento de Carmen e Antônio, toma posse em assembléia a primeira diretoria da entidade, cinco anos após seu surgimento. A primeira sede ficava em sala contígua ao consultório de Prudente, na rua Benjamim Constant, 171, entre o Largo São Francisco e a Praça da Sé.

O câncer era uma das doenças que mais matava em 1939. Em São Paulo e Rio, o Anuário Estatístico do Brasil (IBGE) apontava como principais causas de óbito as doenças do aparelho circulatório, tuberculose e câncer, respectivamente.

No artigo 4o. do estatuto da associação, definiam-se os objetivos: "... intensificar por todos os meios (...) o combate contra o câncer, para o que instituirá a propaganda (...); promoverá a construção de um Instituto de Câncer na cidade de São Paulo com as finalidades principais de diagnosticar, hospitalizar e tratar cancerosos; facultará na medida de suas possibilidades, a esse Instituto, meio de investigação científica; formará cursos especializados sobre câncer para médicos, estudantes de medicina e pessoal técnico; poderá fundar, no Estado, de onde lhe convier, Centros e Postos anti-cancerosos, em relação direta com o Instituto os quais poderão funcionar de acordo com instituições médicas já existentes na localidade; e, finalmente, procurará coordenar os seus trabalhos com outras sociedades congêneres nacionais e estrangeiras."

Desde o início, previa-se a construção de um hospital. Seria um Instituto Central, que propagaria o correto diagnóstico, tratamento e investigação científica sobre o câncer a todo o país, através de institutos locais. Em meios à 2ª Grande Guerra, a assembléia seguinte ocorreu só quatro anos depois, em outubro de 1943. Nela, Prudente faz uma retrospectiva histórica, e relata suas tentativas para a criação do tão sonhado Instituto de Combate ao Câncer.

Prudente já tentara sem resultados um entendimento com a Faculdade de Medicina da USP. O presidente Getúlio Vargas mostrava-se disposto a abrir um centro em São Paulo, como já havia no Rio Grande do Sul. Para tanto, sugeria a locação de um imóvel já existente, como o Hospital Oswaldo Cruz, ex-Hospital Alemão, sob intervenção estatal em virtude da guerra contra o Eixo. Entendimentos com o Hospital Oswaldo Cruz foram intermediados pelo Ministro da Educação e Saúde Pública, Gustavo Capanema, e o Banco do Brasil. Getúlio ficava sabendo em que pé estavam as negociações por correspondência pessoal. O único resultado prático dessas iniciativas, no entanto, foi a incorporação da APCC à Campanha Nacional de Combate ao Câncer, subvencionada pela União.

Com o fim da guerra, em 1945, a APCC afastou a idéia de criar um instituto central no Hospital Oswaldo Cruz. Entraram em entendimento com o antigo Hospital Japonês, chamado então Santa Cruz. Criado e mantido pela colônia japonesa, esta instituição também havia enfrentado intervenção federal durante a 2a Guerra. No entanto, os recursos eram escassos. Fundada em 1934, a APCC conseguiu sua primeira doação somente em 1943, quase uma década depois de seu surgimento.

A partir da grande doação do Comendador Martinelli, Prudente deu dois passos importantes em direção a seu sonho: com ampla mobilização popular, conseguiu estabelecer a primeira clínica especializada para tratamento de câncer. Em 1946, a APCC deflagrou grande campanha para arrecadação de donativos e conscientização sobre a doença. Em maio, foi lançada a primeira Campanha Contra o Câncer. No dia 1o, São Paulo amanheceu com 25 mil cartazes colados nos muros. Obra de Carmen Prudente.

- São Paulo acordou sabendo que o câncer existia e deveria ser enfrentado - diria ela.

O cartaz alertava para os sintomas e para a possibilidade de cura, se o diagnóstico fosse precoce. Uma exposição educativa foi montada na Galeria Prestes Maia, no centro de São Paulo. A cidade inteira acompanhava a movimentação. O câncer não deveria ser mais uma palavra proibida, "aquela doença", "coisa ruim". Existia a possibilidade de cura.

Poucos dias antes do início da campanha, no dia 29 de abril de 1946, Carmen Prudente havia criado a Rede Feminina de Combate ao Câncer. Os objetivos foram enumerados no documento de posse da diretoria. A Rede seria uma organização composta por uma divisão de quarenta chefes, com a proposta de alistar 31.200 pessoas para o combate ao câncer. Existiriam 200 núcleos da Rede Feminina em todo o Brasil. Os núcleos fariam campanhas destinadas a angariar fundos e com propósito educativo de transmitir conhecimento sobre o câncer pelo país, além de encaminhar casos da doença para tratamento.

Carmen Prudente não parou mais: eram chás beneficentes, desfiles no salão de Madame Rosita, na rua Augusta, e até uma gincana que envolveu todos os estudantes de Medicina de São Paulo. Quem arrecadasse a maior quantia em donativos ganharia uma bolsa de estudos nos Estados Unidos. O vencedor foi o estudante Humberto Torloni, que apareceu horas antes do final da gincana carregando uma bolsa com 400 contos de réis, e que depois disso uniria seu destino ao do Hospital do Câncer.

A campanha teve sucesso tão grande que, naquele mesmo ano, APCC conseguiu viabilizar a tão sonhada primeira Clínica de Tumores. O contrato entre o Hospital Santa Cruz e a APCC previa cessão por 20 anos, pelo qual a APCC forneceria ao hospital um significativo valor, a ser reembolsado dentro do prazo de 2 anos. A Clínica de Tumores funcionaria no ambulatório do hospital, e a APCC instalaria no local todos os equipamentos necessários para o trabalho.

Durante sete anos, de 1946 a 1953, a Clínica de Tumores funcionaria no ambulatório do Hospital Santa Cruz. Além de cirurgia, havia serviço de fisioterapia e radioterapia, com aparelhagem trazida dos EUA. Os médicos eram distribuídos em três serviços de cirurgia, cada qual com seu chefe e titulares, para tratamento de pacientes portadores de tumores.

O antigo mestre de Prudente e presidente da APCC, Antonio Cândido de Camargo, morreu meses depois da inauguração da clínica, em 20 de fevereiro de 1947. Assumiu a presidência da entidade outro professor de Antônio Prudente na Universidade de São Paulo, Celestino Bourroul, que durante toda a vida chefiou a Medicina de Homens da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo e que, como mestre, era considerado por muitos como a própria vida da Faculdade de Medicina.

Um Hospital no Pós-Guerra

A reconstrução do mundo em novas bases era o grande desafio lançado à humanidade após o final da 2ª Guerra Mundial. Cabia a políticos, militares e cientistas agora combater em novos fronts. No Brasil, imbuídos desse propósito, e de resto alheios a guerras, ideologias ou quaisquer interesses políticos, Antônio e Carmen Prudente iniciaram a construção de um hospital voltado ao tratamento do câncer.

A Clínica de Tumores já funcionava desde 1946 no ambulatório do Hospital Santa Cruz. Ali, e em outros dois postos avançados nas cidades de Campinas e Santos, atendia-se principalmente indigentes vitimados pelo câncer. Até 1950, mais de 13 mil aplicações de radioterapia e mil cirurgias foram realizadas.

Simultaneamente a esse serviço "prestado a quem quer que procurasse a Clínica, mas a custos altíssimos", Antônio Prudente fincou em 1948, lá para os lados do bairro da Liberdade, em São Paulo, a pedra fundamental do Hospital do Câncer. A APCC - Associação Paulista de Combate ao Câncer havia conseguido, por doações ou compra, dois lotes de terrenos na rua José Getúlio, aberta em 1939 numa região repleta de chácaras, próxima à linha de bonde da rua Vergueiro. Não existia a Av. 23 de Maio, só um barranco que separava a cidade em dois lados. Do outro, ficava o Hospital Beneficência Portuguesa.

Parte do terreno "uma área de 1400 metros quadrados" era um charco onde descansavam cavalos das charretes da chácara Jambeiro Costa, propriedade do casal Leônidas de Castro Mendes e Odylia Jambeiro Costa Mendes - ele, médico da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo; ela, neta do Barão de Ibitinga, de quem herdara as terras.

Jambeiro Costa hoje é o nome de uma ruazinha particular em frente ao Hospital do Câncer. Ali mora a filha do casal que cedeu o terreno para a construção, Maria Odylia Jambeiro Mendes, que traz na memória a mudança que o Hospital trouxe à vida da região e de sua família.

- Nada mais seria como antes por esses lados. Aquele prédio trouxe junto com ele uma fila interminável de pessoas que sofriam e buscavam ajuda. Nós passamos a viver em torno deles.

Maria Odylia aos 8 anos já colaborava como voluntária, nos anos 50. No hospital e na vida, ficaria conhecida pelo apelido de Kocaiô - uma adaptação para o português da palavra japonesa Oraiô, que quer dizer bela alvorada.

O Prédio

O Hospital do Câncer foi projetado pelo arquiteto modernista Rino Levi, filho de italianos formado em Roma e Milão. Levi trabalhava sempre de avental branco, e falava muito pouco - o silêncio costumava ser total em seu estúdio. Quando ocorriam, as discussões eram rápidas e conclusivas. Como numa mesa de cirurgia.

Racionalista, de forte cunho humanista, Levi encarava um projeto como problema a ser equacionado e resolvido. A estrutura passava por inúmeras análises técnicas, realizadas sob total rigor científico. Os cenários urbanos que projetou foram tratados sempre como espaço de cidadania.

De sua prancheta saiu a estrutura com o amplo mezanino sobre o qual se apoiavam 13 andares, e que seria considerado um belo exemplar de arquitetura funcional. Levi projetou janelas que afastassem o sol e o ruído excessivo, e que vistas à distância, depois de construído o hospital, pareceriam pequenas demais para os paulistanos que passavam pela rua.

A Inauguração e os Dois Primeiros Anos

Um monumento à boa vontade humana, ao sentimento de que era preciso reconstruir o mundo em novas bases. O primeiro hospital de São Paulo construído com o dinheiro da população, e a ela destinado, surge sem ligação a nenhuma instituição de saúde oficial brasileira, sem respaldo financeiro de qualquer organização religiosa, tampouco patrocínio de colônias de imigrantes, como era usual.

Tinha no dia 23 de abril de 1953, data de sua inauguração, 307 leitos, 70% deles reservados para pessoas sem recursos, segundo as aspirações de Antônio Prudente. No subsolo, os equipamentos, em grande parte importados da Alemanha: seis conjuntos de radiodiagnóstico e, para tratamento, cinco aparelhos comuns de radioterapia de 1300 miligramas de radium, uma bomba de dez gramas de radium e um betatron ? energia nuclear suficiente para confeccionar uma bomba, com certeza a maior quantidade de que se tinha notícia por aqueles tempos, no Brasil.

O novo hospital trazia a São Paulo o mais avançado conjunto de equipamentos para diagnóstico do câncer - além das máquinas para radiografia, havia material completo para endoscopia, anatomia patológica e radioterapia, o que representavam iniciativas revolucionárias.

Explica-se: as biópsias, ou seja, o ato de retirar pequenos fragmentos para congelação e diagnóstico através de análise microscópica, já existiam desde a década de 20, embora sem sucesso no meio médico. Mas, a partir de estudos sistemáticos e a criação de critérios morfológicos de análise, o diagnóstico microscópico tornou-se mais confiável e valorizado. Só na segunda metade dos anos 40, patologistas começaram a integrar as também recém-formadas equipes multidisciplinares de diagnóstico e tratamento do câncer.

Prudente já trabalhava com equipes multidisciplinares na Clínica de Tumores do Hospital Santa Cruz desde 1946. Estenderia essa prática ao Hospital do Câncer. Daria status de departamento à Radiologia, que incorporava novas terapias ao tratamento clínico da doença.

E havia o corpo de cirurgiões, que seria a espinha dorsal do Hospital do Câncer. As cirurgias realizadas por esses médicos e suas equipes, nas cinco salas de operações do Centro Cirúrgico, 10º andar, espalhariam por todo o prédio o sentimento de respeito, o sentido de sacrifício e a esperança da cura do câncer.

Os Pioneiros

O Corpo Médico contava com 92 especialistas em 1953. Eram médicos, cirurgiões, radioterapeutas, laboratoristas e 35 enfermeiras da Cruz Vermelha alemã. O Hospital do Câncer já surge também como central de pesquisas científicas. Em entrevistas concedidas no dia da inauguração do prédio, Prudente alertava que em todos os laboratórios do Hospital ocorreria pesquisa fundamental, dentro das possibilidades materiais.

Desde a criação, havia o interesse pela coleta e indexação de informações sobre a doença. Disso resulta um grande arquivo científico, que hoje conta com acervo de 400 mil fotos e desenhos; uma das mais completas bibliotecas de oncologia, com 15 mil tomos; além do arquivo médico, onde constam quase 350 mil casos registrados desde o ano de 1953.

O Hospital também já oferecia no ano de seu surgimento residência para médicos, a segunda a existir no Brasil - em 1953 havia apenas a do Hospital do Servidor Público, no Rio de Janeiro. Um centro residencial com capacidade para 35 médicos foi construído em área anexa ao Instituto. A Residência em Oncologia durava 40 meses, dividida em duas etapas: uma geral, entre todas as especialidades, e a segunda, já no ramo escolhido pelo residente.

As filas começaram a crescer. 75% dos pacientes não tinham como pagar. De 25 de abril de 1953 até o dia 15 de novembro daquele ano, estiveram internados 778 doentes e passaram pelo ambulatório 765 pessoas, 60 delas vindas de outros Estados do Brasil.

Entre os doentes, no ano de 1953, estavam principalmente vítimas de câncer de pele, seguidos por colo de útero, mama e estômago, nesta ordem. Foram registradas cerca de 6.500 consultas, 816 cirurgias e nada menos que 4.887 aplicações de radioterapia.

A construção do Hospital custou aos cofres da APCC cinqüenta milhões de cruzeiros. Em dezembro de 1954, pouco mais de um ano após a inauguração, foi registrado déficit de Cr$ 13.120.312,00 - mais de 20% do valor de construção do hospital. Naquele ano, o número de cirurgias quadruplicou, para 3.609. E o número de pessoas que buscavam atendimento triplicou: foram realizadas 19.435 consultas.

A luta pelo Hospital do Câncer parecia não ter fim, e apenas havia começado no dia 23 de abril de 1953, quando suas portas foram abertas. As batalhas mais duras de Antônio Prudente ainda estavam por vir. Mas havia algo que já o fazia sentir-se vitorioso. Em duas décadas - desde o início de sua campanha de mobilização contra o câncer, em 1934 - o índice de portadores da doença que procuravam atendimento já numa situação em que nada poderia ser feito, caiu de 53% para 17% em 1954.

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